Ensinar multiplicação vai muito além de apresentar contas prontas ou pedir que os alunos decorem a tabuada. Trata-se de construir, passo a passo, um modo de pensar matematicamente que começa ainda na Educação Infantil e se desenvolve ao longo dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental. Quando bem trabalhado, esse processo fortalece o raciocínio lógico, amplia a compreensão dos números e contribui para uma relação mais positiva das crianças com a Matemática.
Neste texto, vamos conversar sobre como introduzir a multiplicação de forma significativa, respeitando o desenvolvimento das crianças, utilizando situações do cotidiano, materiais concretos, jogos e estratégias didáticas alinhadas à BNCC. O objetivo é oferecer caminhos práticos para o professor transformar esse conteúdo, muitas vezes visto como difícil, em uma aprendizagem acessível e consistente.
O que é multiplicação, afinal?
Tradicionalmente, a multiplicação é apresentada como soma de parcelas iguais. Por exemplo, ao resolver 3 × 4, costuma-se explicar que se trata de 4 + 4 + 4. Essa abordagem é válida e importante, mas não esgota o conceito. Quando restringimos a multiplicação apenas a esse modelo, empobrecemos a compreensão matemática das crianças.
A multiplicação envolve diferentes tipos de situações, como agrupamentos, proporcionalidade, combinações possíveis e até divisões sucessivas. Compreender essa diversidade permite ao aluno perceber que a Matemática é uma ferramenta para interpretar o mundo, e não apenas um conjunto de regras a serem memorizadas.

É possível trabalhar multiplicação na Educação Infantil?
Sim, é possível — e desejável — trabalhar o pensamento multiplicativo desde a Educação Infantil. Isso não significa apresentar algoritmos ou cálculos formais, mas criar situações em que a criança perceba relações de “várias vezes”, “em grupos de”, “quantos em cada”.
De acordo com a BNCC, na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, o foco deve estar no desenvolvimento do senso numérico, da contagem, da comparação e da resolução de problemas em contextos significativos. O raciocínio multiplicativo pode surgir naturalmente nessas experiências, principalmente por meio da oralidade, do brincar e da exploração de materiais.
O papel da oralidade e do registro
Com crianças pequenas, a multiplicação aparece muito mais no discurso do que no papel. Perguntas como “Quantas mãos temos em duas pessoas?” ou “Se cada criança tem dois pés, quantos pés temos na sala?” estimulam esse tipo de raciocínio.
Os registros podem ser feitos por meio de desenhos, esquemas simples ou produções coletivas em cartazes. Não é necessário, nesse momento, usar números ou símbolos matemáticos formais. O mais importante é que a criança consiga explicar como pensou.
Situações do cotidiano como ponto de partida
Trabalhar com situações reais torna a aprendizagem mais significativa. O cotidiano das crianças oferece inúmeras possibilidades para explorar a multiplicação de forma natural.
Alguns exemplos práticos incluem:
- Quantas rodas existem em três bicicletas?
- Quantos dedos há em quatro mãos?
- Se cinco pessoas estão sentadas à mesa e cada uma usa um prato, quantos pratos são necessários?
Essas situações podem ser adaptadas tanto para o contexto da sala de aula quanto para atividades em casa, fortalecendo a parceria com as famílias.

Exemplos para o contexto escolar
Na sala de aula, materiais como lápis de cor, caixas de jogos, tampinhas e blocos ajudam a criar problemas reais. Se cada caixa tem 12 lápis e há duas caixas, quantos lápis existem ao todo? Ao manipular os objetos, a criança visualiza a multiplicação acontecendo.
Essa prática dialoga diretamente com a BNCC, especialmente com as habilidades que envolvem resolver e elaborar problemas utilizando diferentes estratégias e representações.
Multiplicação além da soma de parcelas iguais
Um aspecto frequentemente pouco explorado é a análise combinatória, que também envolve multiplicação, mas não se baseia na soma de parcelas iguais. Nesses casos, a criança precisa pensar em combinações possíveis entre elementos diferentes.
Trabalhando análise combinatória com crianças
Um exemplo simples é o de roupas: se há três camisetas e duas calças, quantas combinações diferentes de roupas podem ser formadas? A criança pode desenhar, recortar figuras ou manipular peças para descobrir todas as possibilidades.
Outras situações incluem:
- Combinações de sabores de sucos e bolos;
- Tipos de sanduíches com diferentes pães e recheios;
- Montagem de pratos com acompanhamentos variados.
Essas atividades ampliam o pensamento multiplicativo e ajudam o aluno a perceber que multiplicar também é combinar, organizar e prever possibilidades.

Materiais concretos como aliados da aprendizagem
O uso de materiais concretos é essencial na introdução da multiplicação. Eles permitem que a criança veja e toque o conceito, tornando-o mais compreensível.
Alguns recursos simples e eficazes são:
- Caixas de ovos ou de bombons para formar grupos;
- Prendedores de roupa para representar quantidades repetidas;
- Tampinhas, pedrinhas ou sementes para contagem e agrupamento;
- Geoplano ou malha quadriculada para visualização das multiplicações.
Esses materiais podem ser confeccionados pelo próprio professor ou pelos alunos, o que torna a atividade ainda mais significativa.

A malha quadriculada na sistematização
Após a fase de exploração concreta, a malha quadriculada ajuda a sistematizar o conhecimento. Pintar linhas e colunas correspondentes a uma multiplicação permite que o aluno visualize o resultado como uma área, facilitando a compreensão.
Essa estratégia é especialmente útil nos Anos Iniciais, pois prepara o terreno para conceitos mais avançados, como área e proporcionalidade.
Tabuada: compreender antes de memorizar
A tabuada costuma ser um dos maiores desafios no ensino da multiplicação. É importante destacar que memorizar não deve ser o ponto de partida, mas sim uma etapa posterior à compreensão.
Quando a criança entende o que significa multiplicar, a memorização passa a fazer sentido e se torna funcional. Sem compreensão, a tabuada vira apenas uma sequência decorada, facilmente esquecida e pouco útil.
O papel da memória na aprendizagem matemática
A memória tem um papel importante na fluidez dos cálculos. Conhecer os fatos básicos da multiplicação facilita a resolução de problemas mais complexos e reduz a sobrecarga cognitiva.
No entanto, é fundamental equilibrar compreensão e memorização. Jogos, desafios, brincadeiras e atividades lúdicas são formas mais eficazes de fortalecer a memória do que repetições mecânicas.
Estratégias lúdicas para trabalhar a tabuada
Existem diversas formas de tornar o estudo da tabuada mais leve e significativo:
- Jogos de dominó com operações e resultados;
- Batalha de cálculos com cartas ou dados;
- Tapa-certo, em que os alunos identificam rapidamente o resultado correto;
- Desafios em duplas ou grupos, promovendo a cooperação.
Essas propostas favorecem o engajamento e ajudam a reduzir a ansiedade em relação à Matemática.
A tabela de Pitágoras como recurso pedagógico
A tabela de Pitágoras é uma excelente ferramenta para apoiar a aprendizagem da multiplicação. Ela permite que o aluno visualize os resultados a partir do cruzamento de linhas e colunas, facilitando a compreensão das relações entre os números.
Esse material pode ser usado tanto como apoio quanto como instrumento de construção do conhecimento, especialmente quando o aluno participa ativamente do preenchimento da tabela.
Como sugestão prática, vale oferecer aos alunos uma tabela de Pitágoras em PDF, pronta para imprimir, ou uma versão em branco para que eles construam a própria tabela ao longo das atividades.

Relação com a BNCC
O ensino da multiplicação, quando desenvolvido dessa forma, atende diretamente às orientações da BNCC, que enfatiza a resolução de problemas, o uso de diferentes estratégias e a compreensão dos significados das operações.
Além disso, promove o desenvolvimento de competências como pensamento crítico, argumentação e comunicação matemática, essenciais para a formação integral do aluno.
Um olhar sensível para as dificuldades
Cada criança aprende em seu tempo. Algumas memorizam a tabuada com facilidade, enquanto outras precisam de mais apoio visual e concreto. Permitir o uso de materiais de consulta, como tabelas ou esquemas, não significa “facilitar demais”, mas garantir que o aluno avance.
O importante é avaliar a intencionalidade da atividade. Se o objetivo é resolver um problema complexo, o apoio pode ser essencial. Se a intenção é avaliar a memorização, aí sim o recurso pode ser retirado.

Construindo uma relação positiva com a Matemática
Quando o ensino da multiplicação respeita o desenvolvimento infantil, valoriza o significado e utiliza estratégias adequadas, a Matemática deixa de ser um obstáculo e passa a ser uma aliada.
O professor tem um papel fundamental nesse processo, mediando as experiências, propondo desafios e oferecendo apoio sempre que necessário. Pequenas mudanças na prática podem gerar grandes impactos na aprendizagem.
Ao longo do seu trabalho, experimente diferentes estratégias, observe as respostas dos alunos e ajuste as propostas conforme a necessidade da turma. Ensinar multiplicação é, acima de tudo, ensinar a pensar.
Para complementar essas práticas, vale investir em materiais pedagógicos em PDF, como jogos de multiplicação, tabelas de apoio e atividades prontas para imprimir, que facilitam o planejamento e enriquecem as aulas.
Quais estratégias você já utiliza para o ensino da multiplicação nos anos iniciais? Deixe seu comentário e compartilhe sua experiência com outros professores.














